Cores, Dores e Amores

A estética não poderia ser a mais radiante!! brinquedos multicoloridos do parquinho, colegas felizes nos respectivos e preferidos, divertidíssimos e libertadores balanços, escorrega bunda, roda giratória (gira-gira), trepa-trepa labiríntico, gangorra dupla, tripla… Eu?!, bem, estava ao lado das minhas tias e ansiosíssimo para participar da brincadeira. No entanto, meu estômago gritava de mal-estar na primeira tentativa do embalo. Acontece que não sabia descrever muito bem. Afinal, contava com a perspicácia das, praticamente, fadas que eram as tias para adivinharem o que eu sentia. O enjoo foi diagnosticado, não previam, é claro, que eu ficaria de short molhado, é que paralelo ao enjoo, a vontade de fazer xixi foi tão grande e forte que não dera tempo nem mesmo de avisar. Meus olhos arregaladíssimos foram os primeiros a denunciarem tal fato. Sem entender entraram em pânico para logo em seguida perceberem meu short. Naquele instante, era um misto de dor e de uma enorme, quase indescritível vergonha, afinal apesar de ter apenas cinco anos, considerava-me crescido para minha idade e de modo algum admitiria que elas, justo elas, as fadas, trocassem minha roupa. O recreio terminara quando uma delas sutilmente me acompanhou para evitar exposição desnecessária – pelo menos era o que eu imaginara – aos olhares ingênuos dos coleguinhas, mas não menos cheios de galhofas. Eles, desde sempre, não perdiam a oportunidade de caçoar de algo ou de alguém, era “punk!”. Aproximou-se como quem contaria um segredo – eu diria que fora, de fato, o primeiro segredo redentor de minha vida – e por meio de um sussurro, cujo tom provocou um arrepio de felicidade e de bem-estar inigualável, ela revelara, nos primeiros minutos iniciais de aula, a chegada de meu nobilíssimo pai com uma coleção de “shorts”. Sem dúvida, estar às margens de um acontecimento como a do parquinho, por exemplo, que eu ficara fora da curva por razões alheias à minha vontade, é bem verdade, nem sempre significará uma coisa ruim. Não brinquei, mas constatei o primeiro amor fascinante na forma do respeito dispensado pelas fadas madrinhas (minhas “tias”da escola), bem como senti, mais uma primeira vez, o excelso amor paterno por meio de fortes e longos braços, cujo colo transpirava cuidado e um terno e eterno consolo: “…tudo bem Gilberto Júnior, vai passar… fique bem filho, agora você está pronto!…” Agora, com a lança em riste, quixoteio de sala em sala de aula, de casa em casa de aluno, para não perder o juízo, reinventar-me, contribuir para formar cidadãos e, por conseguinte, vislumbrar, na companhia daquelas firmes e providenciais palavras ascendentes, dias melhores com a certeza de estar pronto e atento a quaisquer desafiadoras e oportunas aventuras.

Gilberto Lopes Bastos Júnior.