MENINO MAIÚSCULO

Pernas torneadas, corpos rígidos, posturas inigualáveis… inesquecíveis. Os cabelos, os rostos, o caminhar, indicavam uma só direção. Suas mãos firmes nos eixos de suas respectivas bicicletas causaram o encantamento. O desejo não foi o de ser o objeto, mas o de fazer-me homem para estimular o zelo de mãos tão cheias de personalidades como aquelas. Eu jamais saberia, até então, que, por meio de suas expressões e do guarda-roupa minúsculo que usavam, emergiria a linguagem, a comunicação precoce de que, dali em diante, tornaria-me um menino maiúsculo.

Aquele batente, um degrau de acesso ao corredor quilométrico de minha casa, tornou-se, naquele instante, meu limiar, a certeza de que não seria nada fácil administrar a maiusculinidade que tomara conta de mim. Afinal, eu estava na minha tenra meninice e de repente descobrira, biologicamente, que eu nascera para ser par. Nada contra ao ímpar que é a peculiaridade de cada um de nós, a nossa personalidade. Falo mesmo é de companheirismo, amizade, a m o r, sexo…. Uma direção como a daquelas moças que independente de terem caminhado numa única direção, estavam em paridade.

Hoje, encontro-me numa direção cuja paridade faz-se presente, mas a sensação é a de que preciso aprender mais sobre essa linguagem, essa comunicação que me fora dada precocemente, por que, hoje, não me basta somente as pernas torneadas nem o corpo rígido. O querer ser assistido por mãos outrora marcadamente expressivas não é o mesmo, por isso a minha necessidade de apreender mais, de viver mais, não para estimular algo ou alguém, mas simplesmente para não me sentir só e, unicamente, por não ter nascido para viver só.

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