PEDRO, A MOCHILA E A DOCE CERTEZA

Os cabelos teimavam em não escolher um lado mesmo diante da incansável insistência de um garoto, cuja escova modelava-os para logo em seguida formar uma franja inigualável na testa. E assim aquele ano passou, de maneira doce na medida em que as descobertas mostravam a responsabilidade diante de um gesto, de uma linguagem, de seu corpo e, claro, de seus cabelos. Eles ainda continuam os mesmos, apenas o seu comportamento um pouco menos verde nos presenteou com uma novidade: sua mochila.

Três centímetros mais alto, com sua cor característica do pecado e mais conformado com seus cabelos, Pedro e sua simpatia nos chamou a atenção. É bem distinto e, por isso mesmo, legal vê-lo com ela. Vira e mexe lá está Pedro agarradíssimo como quem diz ela é minha, ninguém se aproxime ou mesmo imagine o que pode ser, logo em seguida encosta em seu puxador como se fosse o ombro da menina loira que usava franjinha e parecia o anjinho da Nossa Senhora da Guia, personagem de uma crônica de Carlos Heitor Cony. Bem, percebe-se, não é somente uma mochila. Há algo mais nisso tudo, uma história… Seria um amigo imaginário ou mesmo aquela menina de franjinha que ele resolveu resgatá-la daquela casa supostamente mal assombrada que outrora pedira em namoro o sortudo autor, e Pedro, então, aproveitando-se do medo do menino autor resolveu namorá-la, imaginando-a, criando-a, personificando-a na mochila?! Não sei, e trazer toda esta sorte?! Casa mal-assombrada e tudo mais?! Lembranças daquela leitura?! Vai ver que é paixão!!

Este ano, indubitavelmente, iniciou mais apaixonante do que nunca. Uma colega de Pedro está com o mesmo sintoma, colega não de turma, de colégio. São bem mais de três centímetros e três anos de diferença, e o efeito colateral é o mesmo, o sentimento. Ela então transpirou e fez a turma sentir a paixão como a forma mais curta do amor. Uma definição curiosa e por isso mesmo interessante. O silêncio tomou conta da sala, afinal sabe-se da força e de como a paixão passa pela nossa vida, mas insistimos em ignorar seu prazo de validade. Então meninos?! Se é a paixão a forma mais curta do amor, como declarou a jovem e não menos doce colega de Pedro, e o amor?! O que seria?!

Depois de tudo isso, a única certeza é a de que nossos encontros, nossas aulas acontecem na forma mais curta do amor, de carona com a mochila de Pedro ou mesmo com a doce certeza de uma tímida e intrépida menina que de maneira mais curta simplesmente ama.